
- Mas eu vi! - exclamou o peixinho, muito afobado, olhos mais arregalados do que o normal.
- Viu exatamente o que? - falou o mais velho do grupo, talvez por isso mesmo, o mais desconfiado.
- Eu estava nadando quando, de repente, o mar abriu na minha frente! A outra parte da água ficou longe de mim. Quando olhei para baixo, vi o chão. Quase caí. Ouvi um barulho e lá vem uma multidão de pessoas andando pelo caminho seco, muito apressadas e assustadas. Tinha velhos, mulheres, crianças de braço, gente de toda a idade. Alguns vinham puxando animais!
Os peixes trocaram olhares entre si. Uns pareciam se divertir a valer, com uma história tão criativa. Outros se mostravam insultados, como se o peixinho os achasse ingênuos a ponto de acreditarem numa lorota daquelas. Os mais amigos se mostravam preocupados com o estado mental dele, especialmente pela convicção que mostrava ao falar.
Já iam se retirando, quando o pobre peixe, meio sem graça, mas sentindo-se obrigado por um impulso estranho e irresistível, falou bem alto:
- E tem mais!
Todos pararam e olharam para trás, inquisitivos.
- Depois que aquelas pessoas passaram e o mar voltou a se fechar, quando olhei de lado quase morro de susto: um imenso cavalo com sela e rédeas, passava ao meu lado com as patas para cima, morto. Depois vi outro. Apavorado, nadei rapidamente para longe daquele lugar medonho. Mas, enquanto me afastava, vi outros cavalos e ainda muitos soldados, todos mortos, vagando pelo mar.
Fulminado pelos olhares de ceticismo de seus amigos e parentes, o peixinho baixou o olhar e saiu nadando sozinho por uns tempos. Algo muito grave havia acontecido com ele. Nunca mais seria o mesmo. Nunca mais iriam considerá-lo como um igual. Mas algo dentro dele ardia. Algo lhe dizia que fora um privilegiado em ver aquela esquisita, mas poderosa cena. Embora só e hostilizado, ele se sentia muito feliz!
Para quem leva a sério e proclama os atos do Deus dos impossíveis, é impossível ser levado a sério por esse mundo.
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